Já vos aconteceu, certamente, ler textos que vos deram vontade de escrever. Nós recebemos este, da professora Irene Crespo, e achámos que seria uma óptima ideia que servisse de inspiração a mais um momento (criativo!) de escrita. Vamos lá imaginar a história que pode estar por trás de um objecto: um livro, uma caneta, um botão, um anel, uma garrafa, uma tesoura... ponham a imaginação a trabalhar e divirtam-se! Ficamos à espera que nos enviem os textos!!!
Objectos com história

Sou um livro de poemas nascido das palavras gloriosas e doridas que um poeta delirantemente lúcido viveu. Da minha capa, de um branco sujo à nascença, escorrem-me ainda hoje letras vermelhas como se o sangue do poeta as tivesse desenhado e quisessem chamar a atenção dos mais distraídos.
Passei por mãos, muitas mesas, lugares com luz, outros cheios de sombras. Durante um certo tempo afeiçoei-me à companhia ávida de uma rapariga frágil e inquieta, que por amor me depôs um dia nas mãos daquele a quem eu haveria de chamar o meu capitão. Foi no último minuto na despedida no cais de Alcântara antes de ele subir para o gigante que o engoliria. Já antes tinha estado na posse do avô dela, senhor simpático e instruído, que me arrancara à escuridão de uma loja esconsa de alfarrabista.
Mas a ninguém amei tanto como ao meu capitão. Fui-lhe companhia fiel na solidão da lonjura.
O uso e as inclemências dos anos deram-me este ar gasto e aleijado em que me encontro agora. Acho que o quis imitar na velhice precoce que o acidente lhe trouxe. Com folhas a faltar, estou agora mais sujo salpicado de manchas de tempo e descuidos. Algumas das minhas palavras já não se deixam ler, desbotadas por lágrimas que o meu capitão chorou furtivamente às escondidas dos seus companheiros.
Nesse tempo eu não sabia o porquê e sofria com os desmandos de uma imaginação sem tino.
Que saudades do toque das suas mãos. Dos dedos grossos e calosos à força de tantas vezes apertarem o gatilho numa guerra onde se perdia como peão abalroado pelos poderosos bispos e cavalos. Dos dedos de ternura aflita a segurarem, delicadamente, o seu brinquedo preferido.
Encheu-me de mil notas à margem dos poemas com cores e traços bem distintos.
Três canetas usou para riscarem as minhas folhas, gravando memórias e emoções.
A mais aristocrata fora-lhe oferecida pelos seus pais, quando concluiu a formatura. Caneta cara, de tinta permanente e preta. Corpo esguio e elegante com o seu monograma desenhado. Gostava de desenhar bem as letras numa caligrafia esmerada e petulante. O seu aparo, afiado e mesquinho, rasgou-me o ventre no desdém da sua superioridade arrogante.
Havia uma outra, de cor verde, berrante e luzidia. Creio que o capitão a escolheu de propósito. Queria com ela escrever a esperança que lhe escapava. Era uma caneta moderna a que ele chamava “esferográfica”. De pomposo só tinha o nome pois escrevia de forma despretensiosa e algo hesitante. O calor do mato, porém, secou-lhe a tinta e nunca mais desenhou uma palavra. A partir desse dia a esperança ficou muda.
A terceira escrevia a azul. Era cor-de-rosa por fora e tinha dois corações entrelaçados desenhados na sua face superior. Eu achava-a a mais pirosa de todas, mas ela soube conquistar-me pois escrevia directa ao meu coração desassossegado de livro de poemas. Além disso, exalava um cheiro que me era familiar.
Por essa altura, a única coisa que o capitão deixou escapar foi que lhe tinha sido oferecida por uma jovem que ele muito estimava. Então percebi que a minha história e a dela já se tinham cruzado lá longe no tempo.
Mas só depois vim a saber a razão pela qual ele nos olhava com uma melancolia desesperada, anotava uma ou outra ideia ao lado de um verso mais triste e a seguir a guardava no bolso do seu uniforme mesmo rente ao coração. Só mais tarde soube da tragédia. Só mais tarde as minhas folhas me revelaram a dor de quem dela só tinha para guardar este livro de poemas e a caneta cor-de-rosa.
Professora Irene Crespo
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