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terça-feira, 30 de novembro de 2010

ACTIVIDADE DE ESCRITA CRIATIVA 6

Uma janela é, segundo um dicionário on-line, uma "abertura praticada a meia altura das paredes externas de um prédio e que, guarnecida por um caixilho envidraçado ou por persianas de madeira, alumínio, etc., pode abrir-se para permitir a entrada de ar e claridade." Mas nós sabemos como uma janela pode ser muito mais do que isso! E vocês também sabem! Mostrem-nos, então, os mundos escondidos por detrás da(s) vossa(s) janela(s)!


Enquanto nos não chegam os vossos textos, aqui fica a "Arte de ser feliz", de Cecília Meireles.









        Houve um tempo em que minha janela
        se abria sobre uma cidade que parecia
        ser feita de giz. Perto da janela havia um
        pequeno jardim quase seco.
        Era uma época de estiagem, de terra
        esfarelada, e o jardim parecia morto.
        Mas todas as manhãs vinha um pobre
        com um balde e, em silêncio, ia atirando
        com a mão umas gotas de água sobre
        as plantas. Não era uma rega: era uma
        espécie de aspersão ritual, para que o
        jardim não morresse. E eu olhava para
        as plantas, para o homem, para as gotas
        de água que caíam de seus dedos
        magros e meu coração ficava
        completamente feliz.
        Às vezes abro a janela e encontro o
        jasmineiro em flor. Outras vezes
        encontro nuvens espessas. Avisto
        crianças que vão para a escola. Pardais
        que pulam pelo muro. Gatos que abrem
        e fecham os olhos, sonhando com
        pardais. Borboletas brancas, duas a
        duas, como reflectidas no espelho do ar.
        Marimbondos que sempre me parecem
        personagens de Lope de Vega. Às
        vezes um galo canta. Às vezes um
        avião passa. Tudo está certo, no seu
        lugar, cumprindo o seu destino. E eu me
        sinto completamente feliz.
        Mas, quando falo dessas pequenas
        felicidades certas, que estão diante de
        cada janela, uns dizem que essas coisas
        não existem, outros que só existem
        diante das minhas janelas, e outros,
        finalmente, que é preciso aprender a
        olhar, para poder vê-las assim.

             Cecília Meireles

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