
Era quando o dia se começava a deitar que Klara dava as boas-vindas à tristeza. Só que hoje a tristeza é mais opaca e nem a claridade translúcida dos candeeiros da rua consegue iluminar, ainda que difusamente, os seus pensamentos e, sobretudo, os seus sentimentos. Klara não poderia saber naquele princípio de noite que o destino lhe vinha fazer uma visita inesperada. E também não poderia adivinhar a viragem dramática que essa visita lhe iria oferecer. Porque a noite, embora clara, embrulhava de escuridão a sua silhueta magra e os seus passos errantes.
É um pouco tarde na noite. Klara vagueia pelos canais de Amesterdão. Saracoteia desajeitadamente o corpo para se sentir viva, contudo não ganha ânimo. Nem o cheiro a pão acabado de cozer no labor tardio de uma padaria por onde passou e que a transportou, numa visita breve, à sua infância (na recordação do mesmo cheiro quente e gostoso que trazia consigo a protecção e o amor que agora lhe faltavam), poderão hoje acalmar-lhe as feridas e o vazio de coração solitário. Talvez mesmo só a companhia dos rafeiros. Rafeiros que, como ela, vagueiam pelas ruas de rabo entre as pernas e focinho caído a farejarem os restos que os outros deixaram.
Os canais por onde hoje vagueia são os mesmos das tardes de sábado da sua meninice feliz. Por instantes, sente-se a chegar a casa, leve e alegre, depois de uma maratona doida de diabruras com os amigos. Consegue mesmo entrever o rosto sereno e apaziguador da sua mãe, que um pouco afogueada, acabara de cozer a última fornada de pãezinhos.
Klara, vem lanchar, parece-lhe ouvir sua mãe chamar. E sente-se a encostar a sua cabeça redonda e pequena à barriga quente da mãe que a enlaça, ainda com as mãos enfarinhadas de pão e ternura.
Mas a noite adensa-se na certeza de que a casa está agora vazia de cheiros e cores.
Klara quer sentir-se na semelhança das águas estagnadas dos canais e estas devolvem-lhe a figura alongada de uma mulher só, ébria e presa numa teia de pensamentos obscuros. Procura nos cais abandonados restos de algum amor deixado, por descuido, no lixo. Amor ou arremedo? Uma sensação de sujo cola-se-lhe ao corpo. Será o lodo das águas ou a lembrança inquietante de uma memória perdida? O olhar de Klara reflecte agora um medo negro, inexplicável e medonho como gazela encurralada pelo seu predador. Não sabe porque é que este medo está a tomar conta dela nem como saltar o muro da esperança.
Fixa o olhar num ponto perdido lá ao fundo. Entrevê, ou julga entrever, uma silhueta desenhada pela luz frouxa de um candeeiro. Um ébrio de solidão como eu, pensa ela. Com passos cambaleantes vai-se aproximando e, de repente, estaca perante o porte altivo que lhe faz frente. Fica muda e quieta. Paralisada e maravilhada, num silêncio de espanto incrédulo. Não sabe se o que vê é mesmo real. Não fujas, parecia ele sussurrar num olhar de arrependimento claro.
Imagens de outro tempo e de outro lugar surgem-lhe desfocadas.
Vê-se com doze anos. Duas bicicletas a pararem uma em frente à outra. Os seus olhos de amêndoa selvagem a perderem-se de deslumbramento e timidez e a fugirem de um outro olhar decidido e claro. As suas mãos húmidas de desassossego a consentirem outras, maiores e mais fortes que as suas. A pele a gritar um reconhecimento mútuo naquele encontro fugaz. Uma faísca a percorrê-los e a revelar a cada um os recantos mais escondidos do outro. E eles a descobrirem o que era a cumplicidade. Diziam, daí em diante, que o destino os tinha posto um diante do outro. E era vê-los sempre juntos, nas suas bicicletas, a caminho da escola ou a sair para um passeio fora da cidade. À sombra de uma árvore, com um livro na mão ou a rebolarem-se em gargalhadas límpidas de uma alegria a não precisar de motivo. Completavam-se nos pensamentos e adivinhavam-se no sentir. Fluía deles uma energia de bem-estar tão cativante, que os tornava desejados em qualquer reunião de colegas e amigos. Ambos escreviam poemas ou o mais próximo disso. Os dele sempre luminosos; os dela, mais melancólicos e fugidios, de uma melancolia que nascia de saudades ou adivinhações. Depois, assim de repente, o romance acabou. Ele, filho de um diplomata, fora viver para longe e ela ficara por ali, a estudar nas escolas e universidade de Amesterdão. A princípio as cartas frequentes falavam da saudade dele, depois foram rareando mais e mais e logo passaram a ser só alguns postais em datas assinaladas e, por fim, só o silêncio. O destino que o trouxera levara-o.
Estou aqui, parecia sussurrar-lhe aquela figura de sombra e luz que agora a fixava, ali a uns cinco metros à sua frente. Klara, com a cabeça em turbilhão, pressente o maravilhoso e quer fugir, mas o corpo não obedece. Quer correr e fica paralisada. Num lampejo de consciência súbita reconhece-o no seu olhar claro e sabe, naquele instante, que ele está ali à sua espera talvez há já muitos dias, muitas noites, muitas vidas. Sente uma torrente de calor irresistível a puxar ambos para um amplexo forte e violento de saudade. Desta vez corre, desata as suas rédeas e deixa-se inundar do miraculoso inesperado. Sem perguntas deixa-se abraçar e lágrimas felizes deslizam-lhe pela cara no caminho de regresso a casa. As mãos grossas dele aconchegam os ossos salientes das suas. Sabe que a cor, o calor e o cheiro a pão acabado de cozer vão estar à sua espera. Sempre lá estiveram.
Professora Irene Crespo
1 comentário:
Uma linda história de amor, com saborosos ingredientes que deliciam qualquer leitor ...
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